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quinta-feira, 24 de Maio

 
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Respeito Cívico 

 

Fomos formados na admiração pelo carácter impoluto dos corifeus da República. O seu exemplo tem-nos acompanhado ao longo da vida como esteio modelador. Como admiramos o seu desprendido idealismo e o elevado respeito cívico que lhes merecia a coisa pública! Tinham definida uma clara e irredutível linha de demarcação entre a esfera pública e a privada. Não havia equívocas e suspeitas promiscuidades. E essa cultura levava a que os primeiros Presidentes da República se deslocassem de eléctrico para o Palácio de Belém, pagando, de seu bolso, o respectivo bilhete, e, quando se alojaram no palácio presidencial, por imperativo de eficácia funcional, liquidassem a devida renda!...
Atraídos pela história deste período e, particularmente, pelo alargamento do conhecimento da(s) mentalidade(s) subjacente(s), lemos, recentemente, o testamento do Dr. Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da Republica eleito, subscrito em 1917, no mês anterior ao da sua morte, que ocorreu a 5 de Março.
O seu singelo conteúdo confirma o “retrato” que fizéramos do político: preocupação de justiça, sentido do outro, honradez, idealismo, lealdade, fraternidade, simplicidade e tolerância franciscanas, meticulosidade. Como dantes se dizia: “um homem de bem”.
Como ele próprio confidencia, pouco pôde “apurar em cerca de meio século de advocacia, vivendo sempre modestamente”. O pecúlio legado era somente “um pequeno espólio em títulos da dívida interna e externa com o rendimento anual de mil e duzentos escudos” e alguns quadros que “representam uma parte importante das minhas economias”. Curiosamente, entre estes, encontram-se dois óleos de José Basalisa, que viveu em Carnaxide, e o seu retrato a óleo que deixa ao médico assistente José Joaquim de Almeida, figura destacada em Oeiras – “exímio e benemérito como clínico, não o sendo menos como amigo leal e dedicado”.
Numa das cláusulas, no sentido de preservar a República, pede que sejam queimados “todos os papéis que se refiram a desinteligências e intrigas entre republicanos” que se encontrem no seu arquivo pessoal.
Muito interessante é a declaração da sua posição perante a religião: “Nunca pude prescindir de uma Causa Suprema […]; Fonte de onde emana a vida do universo, Sol de onde irradia a luz das nossas almas, das sábias leis inalteráveis, a Lei por Excelência, a Beleza, o Ideal, a Perfeição Suprema, Verdade Eterna – Deus.”
Enfim, um humilde-grande homem em incessante busca da perfeição.




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