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quinta-feira, 24 de Maio

 
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No olhar de uma criança 

 

Eu adoro ouvir histórias. E quando os mais velhos, ainda com boa memória, e clareza de espírito, sabem contar histórias da sua vida, então torno-me eu uma criança, com os olhos abertos e todo o meu corpo atento. Temos tanto para aprender com estas histórias contadas na primeira pessoa, onde, com a triagem do tempo, já ficou só o sumo... Ora, numa ida ao Alentejo, acabei à volta da braseira, com um cházinho na mão, a ouvir belas histórias do passado, algumas muito engraçadas que não posso deixar de partilhar, porque nos transportam deliciosamente para o mundo fantástico das crianças.
Viajemos no tempo, para o Alentejo, há setenta anos. Para uma casa onde não havia electricidade e, durante a noite, uma criança teria de palmilhar longos corredores na mais profunda escuridão. A Gertrudes, o nome da minha “contadora de histórias”, tinha medo do escuro, por isso, não ousava sair do quarto nem para ir à casa de banho. Mas houve um dia em que se esqueceu dos medos, das bruxas e piratas do escuro, porque havia algo mais importante para descobrir. Há muito que ouvia falar apaixonadamente de “namorar”, mas não sabia o que era. O que era esse verbo que entusiasmava tanto as moças mais velhas? E, naquela noite, ela sabia que a sua vizinha estava a namorar à janela. Enchendo-se de coragem, atacada vivamente pelo bichinho feroz da curiosidade, saiu do quarto pé ante pé e percorreu sem medo todo o corredor até à janela que a ligava “ao namoro”. Aí, escondida, ouviu o rapaz perguntar: que dia é amanhã? Ouviu a vizinha responder: quinta-feira. E ainda ouviu o namorado dizer: então amanhã vou estar com o Carlos para... E não ouviu mais nada. Voltou para o seu quarto a correr, já cheia de medo, verdadeiramente desiludida com essa história de namorar. Pensava ela: se isto é namorar, então não tem o mínimo interesse. É uma conversa banal. Porque fazem tanto alarido à volta disso?
Outro momento delicioso da minha “contadora” foi este: por ser a filha mais velha e a única menina, durante muito tempo só ouvia os seus pais se referirem a ela como “a menina”. “Olha aí a menina” dizia o pai. “Fica contigo a menina?”, perguntava a mãe. E, menina para cá, menina para lá, a Gertrudes pensou durante muitos anos que se chamava “menina”. Quando lhe perguntavam o nome, ela respondia: menina-menina. E todos achavam muita graça à resposta, sem nunca ninguém a corrigir.
Há outras histórias também, estas de um “contador”, que nos transportam para este mundo mágico das crianças. Ele, quando ia à cidade, só se perguntava: onde brincam estes meninos? Não têm terra... não têm campo... Era preocupante para ele. E também foi uma grande desilusão quando percebeu que Jesus não tinha nascido em Portugal. Sempre tinha ouvido falar na Estrela de Belém a anunciar o nascimento de Jesus e Belém, para ele, é claro que ficava em Lisboa, Portugal. Quando soube que assim não era... a tristeza foi grande, dado que era uma grande felicidade para ele pensar que Jesus, alguém tão importante para o mundo, tinha nascido no seu país. E assim corre a vida, nos olhos de uma criança. Histórias que nos ensinam a multiplicidade de perspectivas que sempre acompanham cada momento.




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