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terça-feira, 07 de Fevereiro
Muitas vezes, de forma natural, vejo-me a vestir a pele de outros personagens e experimento outros olhares; é sempre interessante avaliar as mesmas situações de diferentes perspectivas. Se vejo um menino a apanhar um gafanhoto, e a andar com ele preso de um lado para o outro, digo-lhe para ele se imaginar nas mãos de um ser com 20 vezes o seu tamanho, a baloiçar freneticamente, quase esmagado entre os seus dedos.Ao andar num supermercado, imagino as dificuldades com que um cego se depara ou mesmo alguém que, pura e simplesmente, não sabe ler.E era assim, com certeza, que fazia Kiewlowsky, o realizador da trilogia Azul, Branco e Vermelho, que pôs, nos três filmes, uma velhota, corcunda, a tentar pôr uma garrafa de vidro num vidrão. Uma tarefa bem complicada, só consumada no último filme.Mas há sempre um novo ponto de vista, no qual nós não pensámos. Uma dificuldade que muita gente vive, sem que nós saibamos.Um amigo meu, que é diabético insulino-dependente, apresentou-me uma nova visão, a dele, numa viagem de avião de longo curso. Para manter os níveis equilibrados, o diabético deverá comer com frequência, e quando pediu alguma comida, fora do habitual horário das refeições, recebeu uma resposta negativa. Não, não é possível. Então, ele observou: uma pessoa pode beber álcool durante todo o voo. Aliás, é possível mesmo apanhar uma grande bebedeira. Mas comer, porque se tem fome, ou se precisa, não. Isto tem alguma lógica?Existe também um excelente anúncio que revela esta falta de adequação dos espaços e dos serviços, para aqueles que têm necessidades especiais. Aliás, o anúncio inverte os papéis e obriga a reflexão. Mostra uma cidade feita à medida de pessoas que andam em cadeiras de rodas, onde as pessoas que andam pelos seus dois pés não se integram, pessoas a atender com língua gestual, que não entendem a linguagem verbal, etc., e nessa inversão, nós percebemos bem o lugar dos outros, as suas dificuldades, hoje em dia.Mas este exercício de “troca de lugares” pode ser levado para o quotidiano, dentro de casa, no trabalho, na rua. Para melhor compreendermos quem nos está próximo. E pode ir além fronteiras, para que, nesse confronto com a realidade dos lugares onde ninguém desejaria ter nascido, possamos saber ajudar.É, aliás, um exercício muito útil no trânsito da cidade. Se pensarem que aquele que buzina furiosamente atrás de vocês só pode ter tido um dia terrível, ou que aquele que acelera, só para não vos deixar entrar, não pode andar com muito amor ou felicidade na sua vida, ou então não faria isso, talvez seja mais fácil não ligar, concentrando-se no facto de que, não responder com a mesma moeda, é a melhor prova que você tem mais sorte do que ele ou, então, sabe muito mais da vida.
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