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terça-feira, 07 de Fevereiro

 
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Batalhas Vitualhas 

 

Reza a história que, enquanto esteve entre nós, contratado pelo então Conde de Oeiras para organizar e comandar o exército português, Guilherme Schaumbourg Lippe não teve mãos a medir. Depois de, no quadro da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) – talvez o primeiro conflito bélico com carácter mundial – ter estrategicamente contido o avanço das tropas franco-espanholas, e de ver assinado um armistício, este natural de Londres (n. 1724) parente dos reis de Inglaterra, conde reinante de um dos mais insignificantes estados alemães, foi mais longe e apresentou ao nosso monarca (D. José I) um elaboradíssimo plano de defesa cuja materialização impunha a construção de alguns fortes e fortalezas. Aprovado parcialmente o mesmo – as dificuldades e restrições orçamentais não são de agora – coube a este aristocrata inspeccionar estaleiros de obra, sugerir alterações, criar novos Regimentos e Batalhões e, sobretudo, regulamentar as inovações.
Por norma irrequieto, o esguio e aloirado Guilherme, totalmente absorvido pela missão que lhe havia sido confiada, sonhava com as grandes batalhas de Alexandre Magno, ficcionava estratégias eficazes, e consumia-se a pensar na protecção dos portugueses. Perdão, minto, pois em tempo de paz, a vida proporcionava-lhe muitos e bons momentos de diversão. Caldeava o sangue inglês e alemão que lhe corria nas veias com largas baterias de glóbulos mediterrânicos e com inúmeras plaquetas lusitanas. Isso explica o facto de ter sabido conviver com rasteiras e dissabores, aceitando sempre com o maior prazer os convites que recebia de todos os lados: um verdadeiro gentleman! Certa vez rumou a Lagos instalando-se no Forte da Ponta da Bandeira donde desfrutava de soberba paisagem sobre a cidade e sobre o oceano. Ao verificar tanta ociosidade da tropa aquartelada, não perdeu tempo e engendrou um saudável exercício para os mancebos: ordenou-lhes que descessem até à praia para apanharem, com o respeito que o inimigo merece, os moluscos bivalves da sua perdição: conquilhas! Cozinhá-las-ia depois, ele próprio, para toda a guarnição no meio de muito presunto, chouriço, linguiça, alho, azeite e mais uma que outra vitualha, convenientemente regada com o vinho de Lagoa. Mesmo sem auto-estrada e sem Via do Infante, Guilherme ia até ao Algarve sempre que a apertada agenda o permitia.
- De certeza que em Lagos nunca ninguém mais esqueceu o Conde de Lippe, esse homem que gostava de cozinhar para tanta gente. – Antecipou Hugo a conclusão.
- Tens toda a razão, respondeu o professor, acrescentando: - Tanta que ainda hoje, em Lagos, há quem chame às conquilhas “condelipas”.




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