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terça-feira, 22 de Maio

 
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À conversa com Pedro Moura 

 

Ainda há pouco mais de três anos, Pedro Moura era um funcionário da Câmara Municipal de Oeiras. Reformulo, há pouco mais de três anos, Pedro Moura era um engenheiro aplicado e um dirigente atento. Recomeço, há pouco mais de três anos, o Eng. Pedro Moura, para além do trabalho que lhe era afecto, detinha uma paixão pela efectivação dos sonhos de outrem, nomeadamente, sonhos africanos tão banais, para nós, como ter electricidade. Para melhor me entenderem, explico a conversa que tive com Pedro Moura, apanhando-o numa pausa entre cá e lá, que é como quem diz, entre Portugal e África, ou melhor, entre Oeiras e o Príncipe.
Como o próprio disse: ‘enquanto funcionário da Câmara Municipal de Oeiras, sempre tive uma presença activa nas geminações, quer com Cabo Verde, que foi profícua, quer com o Príncipe, onde me encontro de momento’. E vai explicando que, à luz das geminações que a autarquia assinava, ia realizando projectos, não se detendo no papel, mas indo ao terreno. Para trás, ficam as memórias da iluminação das principais vias da cidade do Mindelo e da alegria de todo um povo que vê nascer uma luz artificial. Pedro Moura andou numa roda-viva, entre cá e lá, levando, de poste em poste, a abençoada electrificação. Um belo dia, o IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento, elabora uma parceria com a Câmara Municipal de Oeiras para a elaboração de uma parceria no sentido de dotar toda a ilha de electricidade. Esta dupla mostrar-se-ia imparável e o projecto foi realizado estando, neste momento, a funcionar. Pedro Moura foi peça fundamental na concretização do projecto. Na sua memória, estão as festas que toda a população fazia, nas fases de teste, quando se acendia a luz, de poste em poste. Um homem que dá ares de duro, demonstra, a relembrar a alegria genuína da população, que as lágrimas, nesse momento, não lhe molharam a cara por um triz, um insignificante segundo, em que se conseguiu conter. Conhecendo um pouco melhor o meu convidado, é fácil percebermos porque não lhe jorram as lágrimas, mesmo quando comovido e profundamente enternecido, é que se Pedro Moura é um homem de paixões, move-o uma racionalidade sem medos, sem receios, imparável como uma locomotiva em velocidade cruzeiro.
Reformou-se e este homem que tanto deu e acreditou nas geminações, na cooperação, no povo africano, foi convidado a mudar-se de armas e bagagens para a ilha do Príncipe a convite do Presidente do Governo Regional da Região Autónoma do Príncipe, o Eng. José Cassandra.
E é, talvez, fruto de uma racionalidade, que se ‘obriga’ a olhar para o Príncipe como um ‘outsider’, quando não o é, e lhe diagnostica, com incrível vivacidade, a natureza dos problemas com que se debate.
Embora defensor de um modelo de geminação que o levou a estreitar os laços com a sua actual terra, reconhece que esse modelo é hoje diferente. Não é com subsídios, com uma inter-ajuda que cria dependência pontual de produtos, que se ajuda o Príncipe a desenvolver-se. Nas suas palavras: «temos de descobrir novas formas de geminação para evitar as subsídio-dependências. Devemos ultrapassar os complexos e criar estruturas de tecido empresarial». Relembra uma frase que ouviu do Presidente da República Cavaco Silva sobre África, em que se revê claramente «É importante deixar de falar de África e passar a falar com África». E para isto, segundo o meu convidado, é fundamental o privado. Temos de olhar para África com outros olhos, pois, para Pedro Moura, África é o continente do futuro. A realidade exige que sejam colocadas novas estruturas, pois as existentes estão débeis, ultrapassadas, envelhecidas. E cita o seu presidente ‘temos de mudar de atitude e temos de trabalhar, trabalhar, trabalhar…’. Está convicto de que, na ilha do Príncipe, há determinação política para se mudar de atitude.
De quando em vez, vem a Portugal para se distanciar de África e, assim, melhor perceber qual a sua atitude perante a sua nova terra.
Cá para mim, são saudades, mas Pedro Moura desmentiu-me dizendo que essas, quando aparecem, mata-as com um belo fado de Mariza em alto som.
Acredita que a solução de uma África moderna e em pleno desenvolvimento, está na massa critica que ainda não há em quantidades necessárias e que, assim sendo, África ainda é o inviável do fácil.
Deixou-me, em busca do calor africano, não aquele que o sol transmite, mas o de toda uma população.
Fico com a sensação de que fazem falta mais pessoas assim!





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