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terça-feira, 22 de Maio
Há amores assim, começam sem serem desejados, mas depois entranham-se e ficam dentro de nós tempos infinitos, quiçá, uma vida. Assim foi a história entre Fátima Barros, nossa convidada e o Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha, onde actualmente funciona a sede da Fundação Marquês de Pombal. Aliás, foi pelas mãos de um concurso promovido por esta mesma fundação, que Fátima Barros encetou um mergulho histórico para descortinar a história por detrás do palácio e quinta dos Aciprestes.A nossa conversa decorreu no jardim fronteiro ao casario. Um sol de Inverno acompanhou o debulhar de situações que Fátima foi relatando, passadas com todo o espaço e casario: «As raízes históricas da quinta entroncam na constituição de dois casais no século XIII, que são doados pelo Chanceler do Rei D. Dinis à Igreja de Santa Marinha da cidade de Lisboa», e logo assim, ao primeiro relato ficamos estupefactos pela longevidade histórica dos casais. «E a quinta é constituída a partir de parcelas dos dois casais, uma com casario saloio, que hoje dá o nome de Palácio dos Aciprestes, e outra com uma extensa eira, da qual pouco resta nos dias que correm». Dito isto, Fátima lança o olhar para o baixio de Linda-a-Velha e diz: «Daqui via-se o rio, tinha uma vista desgarrada, aberta, espraiada», e confesso ser difícil meu olhar romper a urbanização que cresce fronteiriça ao palácio. E continua, enquanto o sol criava nas faces rosetas rosadas a que Fátima dizia parecermos umas saloias. Nada mais apropriado: «E a partir dai, essas unidades territoriais vão-se manter juntas ao longo do tempo, arrendadas. A partir do Século XVII estas duas parcelas de terreno vão estar na posse de Francisco de Miranda Soares, que é o fundador da quinta com o casario, e o que nós conseguimos estabelecer foi uma relação com um dos grandes arquitectos de São Vivente de Fora que é o Luis Nunes Tinoco, que já vem de uma grande família de arquitectos. Ele é sogro do fundador da quinta. Francisco de Miranda Soares transformara os terrenos de cariz acentuadamente rústico que compunham o casal saloio de Linda-a-Velha, numa aprazível quinta de produção e recreio. Este senhor, é um personagem de algum modo modesto e que não possuía grandes posses. No entanto, a sua ascendência modesta não impediu a ambição de exercer uma profissão socialmente elevada». Enquanto embaladas pelo bucolismo do espaço, a historia continua a ser debitada irrepreensivelmente, embora Fátima vá dizendo que escreve melhor do que fala: «Francisco Miranda casou três vezes, mas morreu sem deixar descendência. Por erros cometidos na execução do seu trabalho (os documentos são dúbios quanto à sua participação na ocorrência errada), viu os seus bens serem penhorados, neles está incluída a quinta». Francisco Miranda morre sem conseguir saldar as suas dívidas. Dividas estas que nem seu tio nem consequentes herdeiros conseguem colmatar. Desta feita, houve implicações profundas no percurso histórico da quinta nos cem anos consequentes. E ao longo dos anos, esta quinta «vai sendo doada a personalidades relevantes o que demonstra a importância da quinta.» A história é densa não obstante de muito interessante. Pelo meio personagens com Alexandre de Gusmão e, bem mais tarde, o arquitecto Raul Lino, tiveram uma intervenção significativa no Palácio. O espaço na página não permite a continuação, mas o verdadeiro intuito, é deixar um gosto ‘na boca’ de vontade de saber mais. De preferência, saber-se até aos dias de hoje, onde a Fundação Marquês de Pombal toma forma. Fundação que, para além de dar a conhecer a história do Palácio, abriu-o ao povo, às suas gentes. Gentes que, segundo a nossa entrevistada, se debateram pelo Palácio sempre que foi necessário defende-lo. Isto é um aperitivo. O resto, fica por vossa conta, numa ida a Linda-a-Velha, ao palácio dos Aciprestes e quem sabe, ler o livro que a nossa entrevistada em co-autoria com Joaquim Boiça escreveu, numa edição da Fundação Marquês de Pombal. Nós, ainda ficamos um pouco mais por aqui, a distender os sentidos.
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