Procurar:
Executar Procura

 

terça-feira, 22 de Maio

 
Início » Notícias
À conversa com a enóloga responsável pelo vinho de Carcavelos Conde de Oeiras 

 

À conversa com…
Eng.ª Estrela, enóloga responsável pelo vinho de Carcavelos 'Conde Oeiras'

Estava ansiosa pela nossa conversa porque sou transmontana, mais precisamente duriense e apreciadora de vinhos generosos, e como tal estava ávida por falar com a mulher que tão bem faz o Carcavelos.
Eu já estive nos seus lados. Sou de Coimbra e fui até Trás-os-Montes, porque quando acabei o curso fui convidada pelo Eng. Camilo de Mendonça para ir trabalhar para esses lados. E naquele tempo aquilo era desértico, era o fim do mundo. E no primeiro dia em que lá estou, vou a um café beber uma bica e fumar um cigarro. Entro e só estavam lá homens. Fez-se um silêncio total. Peço a bica e acendo um cigarro, bem, foi um escândalo.

Nunca arranjaria casamento ali, tem consciência, não tem?
(Risos) Pois tenho, pois tenho. Havia de ver os olhares de reprovação!

Imagino o que deveria ter sentido, embora já devesse estar habituada a ser uma minoria, afinal mulheres na sua área, naquela altura, deviam ser muito poucas?
Eram 5 ou 6. Por isso eu já estava habituada ao mundo de homens.

Pois, aqueles homens é que não estavam habituados a uma mulher como você?
Pois não. Aquilo foi uma experiencia interessante, sabe como me tratavam? Eu era a menina da cooperativa.

Olhe que até é um nome muito simpático. Mas deixemos o meu Douro e falemos do nosso vinho de Carcavelos.
Parece-me muito bem. Diga coisas.

Não, eu quero é que seja você a dizer como começou a sua ligação ao vinho de Carcavelos, Conde de Oeiras.
Eu fui funcionária da estação vitivinícola nacional onde estive 33 anos onde fui responsável pela adega e pelos laboratórios. Por sinal estava na estação agronómica de Oeiras o Eng. Luís Carneiro que estava ligado à viticultura, área à qual nunca estive ligada e que me disse ‘Você podia fazer Carcavelos’.

É importante dizermos porque muitas pessoas não sabem, que a viticultura e a enologia não é a mesma coisa.
Pois não, é que os de viticultura sabem da vinha e os de enologia sabem dos vinhos e depois têm de se completar, mas são áreas distintas. 

E depois o Eng. Carneiro lança-lhe o repto e você aceitou logo?

Confesso, eu nunca tinha ouvido falar do vinho Carcavelos, nunca. Ele lá me disse que era um licoroso e pouco mais. Mas como eu era muito estudiosa, fui saber tudo o que era possível saber sobre este vinho desde o tempo do Marquês. Fiquei estupefacta com a fama do vinho, de como tinha sido exportando para tantos sítios e que era conhecido como Lisbon Wine. E então disse que sim senhora, eu fazia o Carcavelos, mas queria fazê-lo à minha maneira. 

E como foi o início?
Eu pedi umas uvas da Estação Agronómica para fazer um ‘casquinho’, assim uma coisa quase a tocar a brincadeira, só para ver como me saia. E lá fiz. Um dia a Estação Agronómica recebeu um grupo de escanções e o Eng. Luís Carneiro diz que tem lá um vinho que eu tinha feito. Eles pediram para provar. Aquilo era um casco de 200Lt de vinho que eu dei a provar e os homens acharam um espectáculo. Eu disse ‘não sei como era o outro Carcavelos, o meu é assim’.

Ou seja, quando começa a produção não tinha ideia de como era o Carcavelos original? Foi quase um recomeçar do zero?
Foi, porque só tinha algumas indicações que encontrei nuns livros que li aquando da pesquisa que efectuei.

Mas não havia vinho de Carcavelos que pudesse comparar?
Havia, mas temos de ver que o vinho de Carcavelos amadurece na garrafa, ou seja, é muito difícil comprar um vinho com 30, 40 ou 50 anos de um vinho que é feito naquele momento. Há uma alteração no vinho que o torna difícil perceber como seria antes dessa mesma alteração.  

Mas provou Carcavelos velho?
Provei, claro. Havia um senhor que trabalhou comigo que tinha uma garrafa de Carcavelos da antiguidade e trouxe-ma. Devo dizer-lhe que estava imbebível. Nem consigo perceber se continua a ser parecido ou não. Depois não podemos esquecer que houve uma grande mudança de clima, de terras entre muitas outras e assim sendo, ninguém pode afirmar que este é o Carcavelos genuíno. 

Há um interregno entre a altura em que você faz o tal ‘casquinho’ e 2004, altura em que recomeça com o Carcavelos em grande, porquê?
Depois de os escanções terem gostado eu comecei a ser bombardeada com o ‘vamos fazer o Carcavelos’. Fiz o Carcavelos na estação vitivinícola até 2000. Entretanto, a adega é inaugurada e para haver a região DOC era obrigatória que as uvas passassem a vir todas para adega, tornando impossível irem para a estação vitivinícola. Estive ausente até 2004, altura em que me aposentei do Estado, e  o director da Estação Agronómica convida-me para vir fazer Carcavelos. Inicialmente disse que não, mas depois aceitei. Venho e a Câmara de Oeiras é que me paga. 

Que castas utiliza para fazer o Carcavelos?
O Carcavelos é essencialmente branco e utilizo as castas da época, nomeadamente arinto, galego dourado e bual. 

É importante o envelhecimento neste tipo de vinhos, ou seja, não é só a mera concepção do mesmo.
Aliás, devo dizer que é fundamental a tecnologia de vinificação e o envelhecimento. Como aqui não havia madeiras, grande parte do vinho está em inox.

E o vinho envelhece em inox?
Pouco, muito pouco.

E não é importante a madeira também para a obtenção de sabores?
Claro, a madeira dá características de aroma, sabor. Com a madeira vamos buscar a complexidade do vinho, os próprios açucares e todas as transformações que as madeiras permitem efectuar. Como tal, a câmara está a investir aqui numas caves para termos o vinho em envelhecer e daqui a uns anos, aí sim, já teremos um potencial muito grande de madeiras, com castas separadas, com lotes e com anos separados. Os anos separados é muito importante porque não há hipótese de se fazer um tipo de vinho único. 

Claro, por isso temos o vinho X ou Y que é melhor num determinado ano do que em outro.
Exacto. É impossível conseguir-se sempre o mesmo todos os anos com as variáveis a que se está sujeito. 

Qual o mínimo em madeira?
Dois anos. Mas se me perguntar ‘acha que sim?’, eu respondo, acho que não.

Desculpe, agora perdi-me.
O mínimo são dois anos, mas dois anos é um vinho ainda muito novo e como tal, deverá estar mais tempo. 

Ou seja, é o mínimo, mas para extrair tudo da madeira, para ganhar corpo, deverá estar mais tempo?
Nem mais. A madeira dá ao vinho aquilo que os provadores costumam classificar de especiarias, sabores a figos, a mel, a passas, e por ai fora, logo um vinho com dois anos é de todo impossível ter uma série de características que um outro de 14 anos poderá ter. 

O que faz com que estas castas sejam tão boas? É o facto do terreno ser calcário e argila? É o mar próximo?
É tudo isso mais o vento, o sol, a humidade… há muitas coisas que interagem com a concepção do vinho: o momento de abafamento da aguardente, a escolha dos lotes, o tipo de madeira, o momento certo para se tirar da madeira nova para a madeira envelhecida…

É uma arte.
Sim, eu acho que sim (risos).

Eu adoro ler os rótulos das garrafas, porque alguns textos são tão poéticos! Diga-me as características do Carcavelos como se de um rótulo se tratasse.
O Carcavelos tem notas de frutos secos, mel, ligeira madeira, aroma adocicado, sabor doce, macio, com corpo e persistência, boa estrutura de boca e complexidade.

Acho poético, confesso. Deixe-me dizer-lhe que gosto do Carcavelos fresco e já me recriminaram por isso.
Mas olhe que está certa. Há duas maneiras de beber o Carcavelos, como aperitivo e como digestivo. E se for como aperitivo ele deve beber-se fresco.

Carla Rocha
crocha@cm-oeiras.pt





© 2009 Município de Oeiras
Todos os Direitos Reservados
Optimizado para Internet Explorer 7.0
Para Firefox utilizar o Add-on IE Tab
AcessibilidadeAcessibilidade

Brasão de Oeiras Município de Oeiras
Largo Marquês de Pombal
2784-501 Oeiras
Telefone: 21 440 83 00
Fax: 21 440 87 12
municipio.oeiras@cm-oeiras.pt